13.09.2019 | 13h:46
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Pressionada para deixar CPI, Selma conta que filho de Bolsonaro gritou com ela

DA REDAÇÃO

KAROLLEN NADESKA

A senadora Selma Arruda (PSL), em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, na quinta-feira (12), revelou estar sendo “pressionada” a deixar a Comissão Parlamentar de Inquérito, batizada de “CPI da Lava Toga”, e que um dos pedidos partiu de um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

“A pressão vem de todo lado. A gente sofre um bombardeio. Ontem [quarta-feira, 11], um dos senadores também relatou que está sendo pressionado”, disse Selma em referência à solicitação para retirar sua assinatura da CPI que que tem por finalidade investigar membros do Poder Judiciário.

Na entrevista, concedida ao jornalista Daniel Carvalho, Selma declara que um dos filhos de Bolsonaro chegou a gritar com ela.

“Não dá para dissociar. Ele estava um pouco chateado. Alguém disse para ele que nós tínhamos assinado a CPI que iria prejudicar e ele falou comigo meio chateado, num tom meio estranho. Eu me recuso a ouvir grito, então, desliguei o telefone”, disse a magistrada aposentada.

A senadora avalia deixar do partido nas próximas semanas desde o episódio. Ela argumentou que mesmo tendo um processo na Justiça Eleitoral por, suposto “caixa 2”, não deixaria de “batalhar” pelas investigações dos poderes.

“O que eles argumentaram é que uma CPI vai trazer instabilidade para o Brasil porque vai mexer com as instituições, com a integralidade delas etc. Não acredito nisso”, finaliza.

Leia íntegra da entrevista

Uma das signatárias do requerimento para criar uma comissão parlamentar de inquérito para investigar integrantes do Supremo Tribunal Federal, a senadora Juíza disse que foi procurada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e pelo senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro (PSL), para retirar sua assinatura e inviabilizar a CPI da Lava Toga Em entrevista à Folha, Selma, 56, disse que Flávio chegou a gritar com ela ao telefone em ligação no último dia 21.

 

"Eu me recuso a ouvir grito, então desliguei o telefone."

Nesta semana, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, se manifestou favoravelmente à cassação da senadora. A senadora diz que está sendo acusada por algo que fez na pré-campanha.

Seu gabinete divulgou nota no início da semana informando que, por causa de "divergências políticas internas" e "pressão partidária pela derrubada da CPI da Lava Toga", a sra. cogitava deixar o partido. A sra. está de saída do PSL? Estou cogitando ainda, conversando com alguns partidos. Mas não pretendo sair da base do governo. De onde partiu esta pressão? A pressão vem de todo lado. A gente sofre um bombardeio. Ontem [quarta-feira, 11], um dos senadores que assinou também relatou que está sendo pressionado. Mas, das pessoas que assinaram, a mais vulnerável sou eu porque tenho um processo na Justiça. Fico sendo sempre a mais atingida.

A sra. diz que a pressão vem de todo lado, mas na nota colocou que há divergências internas. Internamente, de onde está vindo esta pressão? Divergência política não é necessariamente a pressão. Vejo no PSL um partido que ainda não se estruturou como um partido. Ele não acolhe, ainda é um partido muito novo, de muita gente sem história política. Não sabe o que é se comportar num partido. Nunca tive uma pessoa do partido para me defender publicamente. Você já viu alguma declaração do presidente do partido dizendo 'a senadora Selma tem todo o nosso apoio'?

Não. Eles estão, evidentemente, me ajudando, inclusive pagando meu advogado. Mas não é uma coisa que você sinta a acolhida, você sente solta. O senador Flávio chegou a pedir à sra. que retirasse a assinatura? Chegou. Como foi esta conversa? Não vou te contar detalhes. Por quê? Porque é melhor não. Mas pediu. Davi Alcolumbre pediu também. Tenho recebido alguns recados até mais, digamos, chatos, tipo 'cuidado, você tem um processo, tira a assinatura'. Não vou tirar não. Prefiro perder o processo. Esta relação entre seu processo e a retirada de assinatura foi feita pelo senador Flávio ou pelo presidente Davi?

Não. O que eles argumentam é que uma CPI vai trazer instabilidade para o Brasil porque vai mexer com as instituições, com a integridade delas etc. Não acredito nisso. Quem fez esta condicionante então? Pessoas do partido. É gente do partido que veio com esta conversa 'olha, você tem que se aproximar do pessoal porque aí vão te ajudar'.

Deste pessoal que está alvo de CPI. Mas não o Flávio? Não foi o Flávio. O Flávio falou como colega da sra. ou como filho do presidente da República? Não dá para dissociar. Ele estava um pouco chateado. Alguém disse para ele que nós tínhamos assinado uma CPI que iria prejudicar ele e ele falou comigo meio chateado, num tom meio estranho. Eu me recuso a ouvir grito, então, desliguei o telefone.

Ele chegou a gritar com a sra.?

A pessoa fala exaltada, né? E era uma coisa que não era verdade, portanto não dei atenção.

Qual o sentimento da sra. diante disso?

 Não sei se compreendo muito bem por que razão ele teria feito isso, mas acho que, talvez, mais decepcionada. Ele é uma pessoa tão agradável, tão simpática.

Depois disso houve algum contato?

Nenhum contato.

 A Sra. acha que teve anuência do presidente?

Acho que não. O que leva a Sra. a crer que não?

 Não tenho nenhum elemento para achar que sim. Algum recado chegou depois que a sra. deixou claro que não retiraria a assinatura?

Todo dia recebo um. Acho que o recado da Raquel Dodge foi o mais claro.

Qual a relação que a sra. estabelece?

Em tese a procuradora-geral não teria motivos para ajudar o presidente, já que ela foi preterida na escolha para a PGR. A não ser que este parecer já estivesse pronto bem antes, quando ainda havia alguma esperança e, depois, acabou indo por descuido de alguém. Já li também outra posição em que alguém diz que é vingança porque ela teria sido preterida, então ela resolveu perseguir os bolsonaristas.

 

O quanto da sua votação a sra. atribui ao fato de ter sido candidata pelo partido de Bolsonaro?

Uma boa parte. Só não atribuo tudo. Eu já tinha uma história, um serviço prestado para o estado. Eu era uma pessoa conhecida, as pessoas me chamavam de 'Moro de saia', me cumprimentavam, me abraçavam. Não era uma desconhecida que saiu do nada e se elegeu porque estava no partido do presidente.

Ajudou?

Ajudou, mas tenho meus méritos.

Que postura a sra. espera do presidente Bolsonaro diante destes últimos acontecimentos?

 Vou continuar apoiando o governo naquilo que eu tiver convicção de que é bom para o país. Quero muito que tudo dê muito certo, que a história tenha um final feliz.

Num primeiro momento parece contraditório a sra., que foi juíza, defender uma CPI para investigar o Judiciário.

A magistratura de primeiro e segundo grau quer CPI, quer impeachment porque cansou de passar vergonha alheia. Os juízes não aguentam mais ter esta mácula na profissão.

Atacar o Supremo não coloca a democracia em risco?

Não é atacar o Supremo. É investigar um ministro.

A sra. acredita que a democracia no país sofre algum risco hoje?

Não. Tenho certeza absoluta que não.

Mesmo com as declarações do vereador Carlos Bolsonaro agora e do deputado Eduardo Bolsonaro lá atrás?

Vereador, deputado, não é o presidente da República.

 Mas é da família do presidente.

 

Nem tudo o que a tua família fala você acredita.

O próprio presidente mistura esta relação.

 Com certeza. Mas não vejo que haja risco [à democracia].

A PGR diz que a campanha da sra. deixou de contabilizar R$ 1,232 milhão e omitiu 72,29% dos gastos. Isso aconteceu?

Na pré-campanha, fiz alguns trabalhos. Contratei pesquisa qualitativa e uma quantitativa e um trabalho de imagem. Era um ato de pré-campanha e eu precisava ver se eu tinha viabilidade. Foi em abril. Entrou como caixa dois porque eu não prestei contas, só que ninguém presta conta do que gastou fora da campanha.

A sra. teme ser cassada por não ter atendido ao pedido de um colega de partido?

 Tenho confiança no TSE. Acho que este ranço da política de Mato Grosso não chega aqui e os ministros, principalmente, esta composição que está aí agora, é muito reta.

O PSL está sendo investigado por candidaturas de laranjas. A sra. ouviu falar sobre isso durante a disputa?

Lá [em MT], se teve, foi quieto. É muito bonito você dizer 'tem que ter cota para a mulher porque a mulher tem que participar da política'. Ela tem se ela quiser. Obrigar a ter cota é pedir para ter laranja. Até porque mulher não gosta de política. Não é uma tradição nossa ter mulheres na política. As pessoas dizem 'não, política é uma coisa muito suja para mulher, deixa homem'. Quase apanhei das mulheres aqui do Senado por causa disso. Não acredito em cota para preto, para homossexual. As pessoas têm que ser tratadas iguais. Cota, ela que afasta em vez de integrar.

A sra. não concorda que é uma maneira de reparação a grupos que sempre foram preteridos?

A maneira de estabelecer uma reparação é tratando igual, é dando escola boa para preto, para pobre, para todo mundo. Quer ver uma coisa que acho que separa? Feminicídio. Toda mulher que morre é feminicídio. Não. Não pode ser. Por que tem ter um crime específico de feminicídio? É um homicídio como qualquer outro. Agora, matar mulher tem que ser diferente? Claro que a violência doméstica é grande. Mas por que não ataca a causa, então? Faz campanha educativa, pega esses machos e 'para de ser machista'.

 

RAIO-X Selma Rosane Santos Arruda, 56, a Juíza Selma (PSL-MT), é juíza aposentada. Nascida em Camaquã (RS), ficou conhecida como "Moro de saia" e entrou na política partidária em 2018, quando disputou sua primeira eleição.