07 de Setembro de 2021, 08h:00 - A | A

Poderes / PODERES EM GUERRA

"Bolsonaro joga truco e o STF, pôquer", diz analista sobre 'queda de braço'

João Edisom aponta atos de 7 de setembro como uma jogada ensaiada para as eleições de 2022, com impactos, inclusive, na CPI da Covid

CAMILLA ZENI
DA REDAÇÃO




O analista político João Edisom de Souza, professor da Universidade Federal de Mato Grosso, acredita que as manifestações deste 7 de Setembro são uma jogada ensaiada para as eleições de 2022. Uma medição de forças. Nesse cenário, há peões, que sequer sabem que estão em um jogo. Mas os jogos são diferentes, segundo ele: enquanto Bolsonaro joga truco, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) jogam pôquer.

A alusão, segundo o professor, não é dele. Foi feita, inicialmente, pelo jornalista Tales Farias, do Uol. A fala se refere ao fato de que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) seria alarmista: blefa e grita como os jogadores de truco. Na outra via, o STF, com quem Bolsonaro tem polarizado as discussões, também joga. Mas em silêncio, como quem joga pôquer.

João Edisom pontua que a intenção do presidente seria, ainda, diminuir a força da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, movida no Senado, e que tem pretensão de encerrar neste mês de setembro. Isso porque, com documentos consistentes, as acusações poderiam diminuir sua força para as eleições de 2022, as quais, aliás, o ministro Alexandre de Moraes (STF) deverá presidir.

Abaixo, confira trechos da entrevista com o analista político:

#reportermt - Anualmente, a data de Sete de Setembro já é marcada por manifestações, mas este ano parece que vai ser um pouco diferente. Nós sentimos mais tensão no ar. Como é o que o senhor está avaliando esse movimento marcado para hoje?

João Edisom - A gente vem de crises sociais e institucionais que vêm se desenvolvendo há quase uma década no Brasil, e vêm piorando. As pessoas vêm se dividindo, até o ponto em que ela chegou, da polarização. Hoje existem claramente dois grupos distintos e o presidente da República, Jair Bolsonaro, tem optado por esses movimentos, de chamar o público dele, a plateia. E, como lá atrás, por causa do PT, vermelho, ter ficado uma década e meia no poder, houve esse chamamento dessa questão do verde e amarelo. Então, nesse 7 de setembro vamos ter dois grupos: aquele que luta pelo patriotismo, para o conjunto de coisas, costumeiramente, e aquele que usa o verde e amarelo em função da defesa da figura do presidente.

Aí vem a questão: mas, politicamente, o que que o presidente quer com isso? Na realidade, ele quer saber qual é o tamanho da força dele e o que ele pode fazer com essa força. Porque em setembro do ano que vem estamos no coração da campanha. Depois do dia 6 de agosto é liberado a campanha, né? Então não tem campanha eleitoral. Na realidade é eleição do ano que vem que está em jogo e a força que ele pode estabelecer em relação a isso. Porque, junto com isto, tem a questão da CPI.

A CPI está com um documento muito farto e muito consistente, e, dependendo da CPI, ela tem efeito de força política. Dependendo da força política, a CPI pode avançar muito sobre a Presidência, de tal forma que pode até impedir o presidente de ser candidato lá na frente, e, dependendo da força do presidente, ele pode sufocar a CPI. Então, o dia Sete de setembro, existe um jogo em relação a isso. Tem muita gente alarmista pensando em golpe e não sei o que que tem. Tentativa pode, mas força não tem. Não existe um Brasil que pensa de um jeito para fazer um golpe, tomar uma decisão. Existe uma metade do Brasil que pensa de um jeito, metade pensa do outro e o meio entre as metades, que talvez seja até maior e não quer nem uma das duas coisas, né?

Então, assim, essa questão de dizer: “olha, vai ser um golpe, não sei o que tem”, já é uma jogada política de oposição, e essa outra questão de dizer “olha, vamos tomar o STF, vamos dar um golpe” já é uma jogada de situação. Mas não passa de jogada de palavras. A gente não adivinha o futuro, mas eu confesso pra você que eu não espero muita coisa, não. Espero muita pauta para a gente e nada mais do que isso.

#reportermt - Então essa manifestação em sete de setembro está sendo muito alarmista, na verdade?

João Edisom - Exatamente. Uma coisa muito de brasileiro, né? Faz um auê danado e quando chega na hora da briga dói o pé, dói a cabeça e sai para o lado. Não faz parte da nossa cultura. Nós somos latinos-americanos, mas não temos sangue espanhol. Nós somos descendentes de portugueses, de italianos, dum povo que fala muito, mas na hora da briga mesmo chama alguém para apartar. Então, eu não acredito que nós vamos fazer um movimento, sabe? Vai ter uns gritos, pode ser que algum maluco no meio… Um maluco individual sempre aparece por falta de juízo e pode cometer um uma coisa fora do normal. Mas aí não é um movimento político. Uma ação de uma pessoa existe. Toda vez que você tem uma multidão você corre esse risco de ter uma pessoa que seja desproporcional, seja dum lado, seja do outro, né? Agora, reunir no dia da pátria faz parte do jogo da democracia. Ameaçar as instituições, não. Mas a reunião, gritar pelos seus direitos, gritar por aquilo que pensa, faz parte do jogo democrático.

#reportermt- O senhor mencionou a CPI da Covid. Então, essa questão em torno do 7 de Setembro está sendo mais uma cortina de fumaça do presente para desviar o foco da CPI?

João Edisom - Sem dúvida. Em política não existe nada por acaso. Tudo em política é uma amarradinha, tá? Até o ataque, a questão do STF, já é um ato pensado lá na frente. Porque o problema não é o que o Alexandre Moraes fez, é o que ele pode fazer. Por que? Pela escala, na eleição de 2022 o presidente do TSE que vai tocar as eleições é o Alexandre Moraes. Então o ataque sobre ele já é prevenindo lá na frente, tá? Não existe nada que não é amarrado. Essa questão de agora mostrar força é porque, se tudo correr bem, tecnicamente, dia 22 de setembro encerra a CPI. Indiscutivelmente, do dia 8 até o dia 22, a relação do movimento que está sendo feito no dia 7 vai influenciar muito, não só no discurso, mas na questão da apresentação de documentos e provas. Então, tudo está interligado. O que existe nessa história, seja dum lado seja do outro, da esquerda ou da direita, do centro, é muito inocente sendo usado como massa de manobra, mas daí é população e tem gente que gosta. Tem gente que não importa que a festa dê prejuízo, o importante é estar na festa.

#reportermt - Sobre não termos sangue de espanhóis, os bolsonaristas parecem estar mais audaciosos, não é? Estão desafiando autoridades...

João Edisom - Em grupo e nas redes sociais, né? Todos, na hora que são presos, passam mal. Então assim, em grupão ou através da rede social, ou seja, longe da onde a mão alcança rodar o soco, eu posso falar um punhado de coisas, mas, nos momentos em que foram presos e aconteceu um punhado de coisa, o que a gente tem visto que é um punhado de gente desmaiar, inventar atestado médico, chorar. Então, assim, na realidade é uma grande balela tudo isso. O brasileiro não luta pelo Brasil, ele luta pelo seu interesse individual, tá? E nós não somos contra a corrupção, somos contra o corrupto que não nos apoia, não nos representa, porque se ele representar, ele se transforma em ídolo, as pessoas se apaixonam por ele. Ninguém está preocupado em cuidar se vai ser roubado ou não. Se o cara for o que eu gosto, pode, só não pode se não for o que eu não gosto, né? A gente viu isso com com o PT, com o Lula lá no Mensalão, na Lava Jato, e a gente está vendo isso agora. Não adianta apresentar provas que está tendo coisa errada, porque eu gosto do cara, então isso é mentira. É uma coisa assim. Isso faz parte do dessa natureza brasileira, né?

#reportermt - Essas prisões do STF contra os extremistas, os ministros começarem a reagir a essas provocações, não inflamam esse movimento?

João Edisom - Olha, a frase não é minha. Alguém disse o seguinte: O Bolsonaro joga truco e o STF joga pôquer. É mais ou menos isso. O STF ele está sabendo exatamente o que ele está fazendo, passo a passo, está costurando as coisas. Enquanto, do outro lado, há um punhado de blefe, seja do Bolsonaro, dos outros políticos, da esquerda, sempre blefando. Como blefa a imprensa o tempo todo, né? Tentando regular a imprensa, calar a imprensa, fazer um punhado de coisa, mas são meros blefes.

#reportermt - Tem uma previsão, um cenário em que essa poeira abaixa, que tudo se acalma novamente?

João Edisom - Se na eleição do ano que vem for eleito alguém fora desses dois polos, abaixa. Se for eleito alguém dentro desses dois polos, o Lula ou Bolsonaro, não termina. Nós teremos mais um período longo pela frente. Possivelmente, se for um desses dois, não termina o mandato, deve ter impeachment, porque não deve ganhar com grandes diferenças, e a gente vive mais alguns anos de turbulência. Agora, se vier alguém fora desses dois grupos, que tem a capacidade de aglutinar, na eleição de 2022 conclui e a partir de 2023 a gente começa a pensar no país.

#reportermt - E o senhor acredita nessa terceira via? Tem algum nome que o senhor acha que é viável, que tem chance real de ser eleito?

João Edisom - No momento eu não consigo te dizer nenhum nome. Agora, a gente deve lembrar que, um ano antes da eleição passada, de 2018, ninguém previa que o Bolsonaro ia ser eleito, né? Acho que nem ele mesmo. Então, tudo é possível. Não acho impossível, mas se você perguntar, qual seria o nome, qual seria a vertente, não sei. Mas é possível que, de repente, saia alguém que caia no agrado, porque a gente está verificando que a popularidade do Bolsonaro caiu bastante. Aqueles índices de pesquisa que colocam o Lula na frente, não é que eles estão errados, mas é que, muitas vezes, quando é colocado para fazer as duas escolhas, as pessoas não esão votando no Lula, estão votando contra o Bolsonaro. Isso significa que esse voto não é necessariamente no Lula, ele pode ser de qualquer outra via. A mesma questão é o cara que, de repente, colocou o nome do Bolsonaro porque apareceu o nome do Lula. Não é que ele é tão Bolsonaro, é que ele é muito contra o Lula. Então, esse voto pode ser cooptado por um candidato de última hora, desde que ele encontre um discurso, uma fala que contemple esse cidadão que não se sente representado em nenhum dos dois polos, que hoje é a grande massa brasileira.

#reportermt - O senhor não acha que as pessoas estão um pouco descrentes da terceira via?

João Edisom - A resposta das pessoas é para aquele momento em que você perguntou. Porque, até agora, não surgiu um discurso ou uma fala que contemple ela, entende? De repente uma fala, uma frase que alguém diga lá na frente possa explodir. É fácil? Não, não é fácil. Mas eu estou dizendo que não é impossível, tá? De repente vem alguém com uma fala, com alguma coisa que cai no gosto popular, e ele arrranca voto dos dois, tá?

#reportermt - E em relação ao exterior? A Embaixada dos Estados Unidos emitiu um alerta em relação ao Sete de Setembro. Como está a imagem do Brasil e do 7 de Setembro na comunidade internacional?

João Edisom - A imagem no exterior é que 7 de setembro é uma tentativa de golpe do presidente. Porque o Brasil é formado por três poderes, e o presidente está fazendo questão que seja isso, que o 7 de setembro será praticamente uma tomada, uma destruição de um dos poderes, que seria o Poder Judiciário. Onde não há justiça, não há segurança jurídica. Onde o judiciário não é composto, não é respeitado. Então, isso não tem afetado só os Estados Unidos. Todos os países com que nós temos relações comerciais estão preocupados hoje.

Eu leio todos os dias os jornais europeus e praticamente todos os setoristas brasileiros falam da preocupação em relação ao 7 de setembro. Alguém que tem contrato com empresas brasileiras lá fora, qualquer conversa assusta, né? Então, assim, este é um problema seríssimo do ponto de vista comercial. Uma coisa é a gente pensar aqui dentro, que vai ter um impacto, que alguém vai tomar o poder, um punhado de coisa. Eu, pelo menos, não estou com medo disso. A outra coisa é a gente pensar o Brasil do ponto de vista diplomático e as relações comerciais lá fora. Aí tem impacto? Tem! Esse movimento tem impacto e, provavelmente, vamos sentir na bolsa de valores, deve ter uma retirada de dólar significativa.

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